Michel Augusto

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Sola Scriptura, Tradição e Liberalismo Teólogico

 Sola Scriptura, Tradição e Liberalismo Teológico

Reflexão 500 anos da Reforma

Por Michel Augusto

            A efervescência da teologia reformada no Brasil é algo importante e traduz o triunfo do Evangelho sobre as deformidades enfrentadas no meio evangélico brasileiro. A “ênfase da Reforma sobre a Palavra escrita e pregada representa um profundo desafio da igreja de hoje quando ela tenta proclamar o Evangelho ao mundo contemporâneo[1]”. Porém, é preocupante a forma pela qual o Sola Scriptura tem sido tratado em algumas cabeças “teológicas”. A empolgação é tamanha que, a defesa do Sola Scriptura, tem anulado a tradição e isso pode ser tornar um tiro no pé. Senão, vejamos:

  1. Defender o Sola Scriptura como algo inferior ou igualitário à tradição é um erro que já foi vencido pelos Reformadores;
  2. Defender o Sola Scriptura sem a tradição como ferramenta pedagógica, ao invés de criar solidez, pode gerar um sistema semelhante ao do liberalismo teológico, que nada mais é do que uma rejeição à figura da autoridade (tradição) da igreja.
  3. Defender o Sola Scriptura sem a tradição pode soar como algo heroico, mas não passa de estultícia teológica, “pois o intérprete autônomo pode mais facilmente ser colocado nas pegadas do iluminismo do que na Reforma[2]”.
  4. Defender o Sola Scriptura sem a tradição pode nos levar à ruina, pois não obstante as Escrituras conterem elementos suficientes para uma interpretação dela mesma, os pressupostos interpretativos contidos na história da igreja fornecem elementos sem os quais podemos cair em erros crassos. A exemplo disso, temos clichê do “teólogo liberal, que afirma que o discurso precisa ser neutro e jamais deve ser influenciado por tradições teológicas[3]”.
  5. Defender o Sola Scriptura sem a tradição pode nos levar à tolice. “Lutero e Calvino consideraram sabiamente a história, os concílios, os credos e a tradição da Igreja, inclusive os escritos dos pais, que caso fossem ignorados, poderiam gerar tolices e arrogância[4]”.

Ser conservador é colocar as Escrituras em alto relevo, mas ao mesmo tempo, entendendo que somos limitados e temos que reconhecer que alguns irmãos caminharam um pouco mais. Jonas Madureira ao citar Bernardo de Chartres, afirma que “somos como anões montados em ombros de gigantes para podermos ver mais, muito mais longe que eles, não pelo alcance do nosso olhar ou pela estatura do nosso corpo, mas porque, quando erguidos ao alto, somos alçados pela grandeza dos gigantes[5]”. “Podemos tão facilmente escapar de uma cultura e comunidade interpretativa nas quais aprendemos a ler a Bíblia?[6]” Cuidado, pois ao invés de se tornar um conservador, defensor nato do Sola Scriptura, você pode estar caindo nas garras do liberalismo, pois são eles que ignoram a tradição.

Sobre o Autor

Michel Augusto é casado com Gisele Eduardo, pai do Otávio e Eduardo Augusto. Pastor, teólogo e advogado. Doutorando em Teologia Pastoral (pregação) pelas Faculdades EST – bolsista Capes. Mestre em Teologia (Musicalidade, Espiritualidade e Mídia) – EST. Bacharel em Direito e Teologia. É professor de Teologia Pastoral na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastoreia a Igreja Batista Reformada Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF. Áreas de pesquisa acadêmica: Teologia Pastoral; Pregação, Teologia da Musicalidade e Espiritualidade.

Notas Bibliográficas

 

TRUEMAN, Carl. Reforma Ontem, Hoje e Amanhã. Brasília: Editora Monergismo, 2013.

HALL, Christopher A. Lendo as Escrituras com os pais da Igreja. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2007.

MADUREIRA, Jonas. Inteligência Humilhada. São Paulo: Editora Vida Nova, 2017.

 

[1] TRUEMAN, Carl. Reforma Ontem, Hoje e Amanhã. Brasília: Editora Monergismo, 2013 p. 813(Kindle Edition).

[2] HALL, Christopher A. Lendo as Escrituras com os pais da Igreja. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2007, p. 20.

[3] MADUREIRA, Jonas. Inteligência Humilhada. São Paulo: Editora Vida Nova, 2017, p. 418 (Kindle Edition).

[4] HALL, 2007. p. 20.

[5] MADUREIRA, 2017, p. 359(Kindle Edition).

[6] HALL, 2007. p. 20.

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