Michel Augusto

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De Gutenberg a Zuckerberg: 10 temas para uma reflexão da fé reformada no século XXI

Por Michel Augusto

[Reflexões 500 anos/ parte 2]

A Reforma conseguiu êxito pela graça poderosa de Cristo e o auxílio da criação da impressa através de Gutenberg, que multiplicou o acesso às Escrituras Sagradas. Hoje, as redes sociais, principalmente o facebook do Zuckerberg tem possibilitado um acesso a conteúdos bíblicos e teológicos de forma contundente. Os que não tinham voz começaram a se expressar e isso tem sido importante, mas se torna preocupante, pois, embora todos sejam “teólogos”, muitos não se submetem para que essa teologia seja apurada e refinada com requintes de biblicidade e historicidade.

Assim, de Gutenberg a Zuckerberg, muitos temas foram tratados, mas precisam ser apurados para a nova realidade de “teólogos facebookianos”, tais como:

1) Graça Especial e Graça Comum. A reforma não trata apenas de questões soteriológicas. A espinha dorsal é a doutrina da justificação em Cristo, sem referência às obras, mas a vida cristã não será totalmente compreendida e vivida se não considerarmos a ação de Deus nas coisas criadas;

2) Fé e ciência. Em decorrência do agir do Senhor que não se ausentou de sua criação, precisamos entender que a ciência é fruto dos dons naturais do Senhor. Agora, o homem pode dar outro sentido à ela, através dos sistemas que dicotomizam sagrado e secular, criando uma autonomia do ser e da pesquisa, em sistemas secularizantes;

3) Sagrado e Secular. É uma separação perigosa, que leva o cristão a criar estruturas independentes, onde a adoração se estabelece geograficamente. Uma vida para a glória de Deus acontece em todos os setores da vida;

4) O cristão, a sociedade e a cultura. Procurar estabelecer uma relação, onde a cosmovisão parta das Escrituras, mas tenha limites estabelecidos pela própria Palavra. Conforme a contribuição do Keller, “não se prender à um modelo de sistema cultural, mas colocar o Evangelho no centro[1]”;

5) Igreja universal e igreja local. Essa relação nos leva a entender que o povo de Deus não está registrado no livro da vida conforme as nomenclaturas denominacionais. Por outro lado, o desigrejamento atual tem desprezado o valor das comunidades locais. Todo extremo é perigoso. Cada comunidade tem particularidades da tradição que podem ser tratadas, mas o “pregador deve fazer com que as pessoas tirem os olhos das particularidades de sua comunidade cristã e voltem para a natureza universal do Evangelho[2]”;

6) Evangelho, Catolicidade e Reforma. Em decorrência do princípio acima, a fé reformada atual precisa ter o entendimento da relação do Evangelho e catolicidade. A reforma não trata de princípios que não tenham sido discutidos anteriormente no Evangelho e nos pais da igreja, mas reavivou tais temas;

7) Bíblia e tradição. A reforma não anulou a tradição, mas a subjugou ao crivo das Escrituras. O Sola Scriptura deve ser prioritária, mas a tradição é  pedagógica e ajuda a evitar o relativismo;

8) Ministério e Academia. Deus não fugiu da sala de aula, mas os cristãos com suas dicotomias medrosos, caíram nas fábulas secularizantes. A academia pode ser desenvolvida para a glória de Deus. Não podemos separar púlpito e cátedra, ministério e academia, vida cristã e universidade, mas descobrir os pontos cegos que foram criados nos séculos XIX e XX para estabelecermos uma academia sem autonomia do Senhor;

9) Legalismo e Antinomismo. O legalismo é uma “perspectiva segundo a qual podemos pôr Deus na posição de devedor, ao buscamos alcançar sua benção com nossa bondade, e o antinomismo, a perspectiva segundo a qual podemos nos relacionar com Deus sem obedecer a sua Palavra e seus mandamentos[3]”. O equilíbrio cristão é termos uma ortodoxia viva;

10) Sacerdócio universal e magistério local. A conquista do povo de Deus em entender e viver um relacionamento com Deus por intermédio unicamente de Cristo e ter acesso pleno das Escrituras Sagradas, não anula o magistério da igreja local, através dos ministros ordenados para tal tarefa. O pastor e mestre não pode ser ignorado no processo do ensino.

Muitos tratam a reforma como algo referente somente às mensagens do Paul Washer ou ao extremismo do John McArthur. A espinha dorsal da reforma é o retorno às Escrituras, e muitos passam mal quando descobrem que a discussão da reforma não é somente soteriológica, mas também

Michel Augusto é um cristão reformado, pastor, teólogo e advogado. Doutorando em Teologia Pastoral (Pregação) – EST (bolsista Capes). Mestre em Teologia (Musicalidade, Espiritualidade e Mídia) – EST. Bacharel em Direito e Teologia. É professor de Teologia Pastoral na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastoreia a Igreja Batista Reformada Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF. Áreas de pesquisa acadêmica: Pregação; Teologia Pastoral; Teologia da Musicalidade.

Notas 

[1] KELLER, Timothy. Igreja Centrada. São Paulo: Editora Vida Nova, 2015.

[2] WARD, Timothy. Teologia da Revelação. São Paulo: Editora Vida Nova, 2017, p. 202.

[3] KELLER, Timothy. Pregação. São Paulo: Editora Vida Nova, 2017.

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