Michel Augusto

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Uma Igreja Batista Pode ser Reformada?

 Uma igreja batista pode ser reformada?

 

A nossa proposta de teologia é “trabalhar a partir do Evangelho. Isso implica um não ao: pragmatismo, superficialidade doutrinária, falta de reflexão e filosofia motivada por métodos. A renovação que precisamos é advinda do próprio evangelho, que nos leva a viver a graça em todos os aspectos da vida, para que o ministério não seja marcado pelo legalismo e nem pelo intelectualismo frio[1]”, e nem antinomismo.

Assim sendo, “se quisermos permanecer fiéis às Escrituras e ao Senhor Jesus Cristo, devemos batalhar “diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3). Nosso maior tesouro é a autoridade da Palavra de Deus. Se perdemos a compreensão das Escrituras, também iremos perder a compreensão do Evangelho. Esses princípios estavam no centro do debate do século XVI e devem ser recuperadas. O crente deve estudar as Escrituras e defender as verdades bíblicas para não ser arrastado para longe da verdade”[2].

Assim sendo, considerando que:

  1. Conforme o legado da reforma protestante, a nossa convicção bíblica está acima de toda e qualquer confissão, mas a tradição nesse processo, não morre;
  2. Embora as confissões e credos não estejam acima e nem em paridade com as Escrituras, não são nulas e tem um valor didático, pedagógico e nos ajuda a evitar o relativismo teológico e um pluralismo religioso;
  3. Consideramos as confissões e a prática reformada, embora não sejam unânimes entre si, são relevantes e coerentes com as Escrituras Sagradas;
  4. Queremos resgatar a Palavra de Deus, como princípio normativo e prático, conforme a intenção dos reformadores, porém de forma ampla e restrita para o contexto da Igreja Batista Deus é Luz em sua expansão missionária, em detrimento do liberalismo teológico e pragmatismo religioso pós-moderno;
  5. A Reforma Protestante, como movimento amplo do século XVI, é uma herança para todas as igrejas de todos os tempos, e deve nos levar à uma reflexão bíblica constante no âmbito denominacional;
  6. A Tradição Reformada não está restrita às igrejas do século XVI, mas à todas as igrejas que se identificam com a tradição, de forma ampla ou ampla e restrita.
    a.   Ampla – 5 solas  – reflexão contra os documentos papais, que incluem: luteranos, calvinistas, metodistas, batistas e outros grupos na atualidade.
    b.   Restrita: 5 pontos do Calvinismo (tulip):  igrejas calvinistas, que não estão restritas somente à Suíça, Franca e Holanda, mas a todos os grupos que confessam os 5 solas e a tulip.
  7. Embora a Reforma tenha sido mais identificada com o calvinismo, por uma fase mais enfática, ela é mais ampla que o calvinismo;
  8. A Reforma de forma ampla (5 solas) trata de princípios que são seguidos direta ou indiretamente por igrejas históricas e evangelicais nos últimos 500 anos, mas que foram abandonados paulatinamente. A Reforma de forma restrita (5 pontos do calvinismo) também é seguida de forma aberta ou velada por muitos pastores e denominações;
  9. A história dos batistas é controversa, e tais podem ser considerados como “gerais (arminianos) ou “particulares” (calvinistas);
  10. O que caracteriza uma igreja como reformada não é somente o período histórico em que ela está inserida, mas a centralidade da pregação e o culto cristocêntrico, regulado pelas Escrituras Sagradas;
  11. A nossa liberdade de consciência aponta para uma fé com uma metodologia hermenêutica histórico-gramatical, a qual honra as Escrituras como Sagradas, isto é, como Palavra de Deus. Tal fato nos limita a aceitar o feminismo evangélico e outras teologias contemporâneas que estão inseridas no bojo de muitas denominações históricas;
  12. Que não há unanimidade quanto à soteriologia e as definições teológicas na prática batista no mundo, o que nos leva a buscar uma definição mais clara e centrada, para fins de regra e prática;
  13. A Reforma não se restringe às questões soteriológicas, mas diz respeito à um resgate de uma adoração bíblica que luta contra os resquícios modernistas;
  14. Na prática denominacional histórica, em alguns seguimentos, infelizmente, tem sido levantado “apóstolos”, mesmo indo contra os contornos bíblicos e aplicação para atualidade. A prática neopentecostal tem sido uma realidade também em algumas denominações históricas, através de campanhas de prosperidade, confissão positiva, crendices populares e pregações antropocêntricas. Acreditamos que a nossa espiritualidade precisa ser bíblica e que o “reavivamento espiritual, através do poder do Espírito Santo continua a se manifestar de formas especiais e ocorre periodicamente na vida da igreja[3]”, sem a necessidade de invencionices;
  15. O liberalismo teológico e o método histórico-crítico tem sido defendido em algumas igrejas históricas e seminários históricos, mesmo contrariando os corolários da inspiração (2 Pe 1.21), inerrância e autoridade final das Escrituras e contidos nos textos confessionais; Como funciona a mente de um liberal?J. Gresham Machen diz que: “você normalizar sua vida somente a partir das questões éticas morais e ministeriais da vida de Jesus sem levar em conta todo um corpo de doutrinas das escrituras sobretudo os ensinos Paulino, é como desviar-se do real sentido do Cristianismo e viver num ostracismo teológico”;
  16. Ser um batista reformado não implica em alteração da forma de governo da igreja local;
  17. Ser uma batista reformado não significa abandonar a forma do batismo (imersão), e o credobatismo (batismo dos regenerados e a respectiva profissão de fé). Nem implica na alteração do entendimento acerca da ceia do Senhor, mesmo porque não houve unanimidade entre os reformadores de primeira e segunda geração quanto à isso;
  18. Ser um batista reformado não implica em mudanças no tocante ao entendimento da continuidade ou cessação dos dons;
  19. Os batistas calvinistas do século XVII, tais como: John Bunyan, Nehemiah Coxe, Hanserd Knollys, William Kiffin, Benjamin Keach e John Gill, se opuseram ao estado nacional e sendo assim, ser um batista reformado não significa voltar à uma prática de união da igreja com o Estado, mesmo porque no Brasil, o Estado é laico;
  20. A doutrina batista, que tem como tarefa contínua, a autocrítica, deve nos levar à um discernimento que não implica em cisão, mas ajustes necessários, pois a reforma não terminou. Lutero não quis criar uma cisão, mas reformar a igreja em alguns pontos.

Por fim, declaramos para os devidos fins que, a nossa prática de fé reformada é ampla (5 solas) e restrita (5 pontos da TULIP), não deixando de ser batista, pelos motivos históricos e teológicos citados.

Os Batistas podem ter uma vertente reformada no bojo convencional, e a Igreja Batista Deus é Luz, através da sua identidade reformada e alteração do nome para Igreja Batista Reformada Deus é Luz, não pretende sair do sistema denominacional, por questões fraternas e suporte para questões éticas.

Dentro do princípio da liberdade de consciência, clama por uma reflexão e espera não ser vítima da intolerância quanto às argumentações acima e inserção do termo “reformado”.

Notas bibliográficas

[1] KELLER, Timothy. Igreja Centrada. São Paulo: Editora Vida Nova, 2015.

[2] ARMSTRONG, John. O mistério católico. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.

[3] Fraternidade Reformada Mundial

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