Michel Augusto

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Fé e Trabalho no contexto das Raízes colonizadoras do Brasil

O processo de separação da fé da vida pública no contexto mundial, deve-se em parte, à influência da revolução industrial, onde os homens que outrora “viviam num sistema colonial, foram obrigados a irem para as indústrias e abandonaram a participação efetiva na família e na fé, transferindo a fé para a esfera privada, diretamente no domínio das mulheres”(1). A fé não acompanhou o pai de família por uma falta de cosmovisão correta da vida cristã. A mulher se tornou a discipuladora do lar e o homem, aquele ser que enfrentava a vida “secular”. Isso trouxe muitos prejuízos para o contexto atual, como por exemplo, a falta de compreensão do que seja “santo e “profano”. O lar era considerado um ambiente santo e o trabalho, um ambiente “mundano”. O fim de tudo isso é a falta de habilidade do crente em aplicar a fé ao contexto da vida em todos os seus aspectos.

Por Michel Augusto

Especificamente no caso do Brasil, este tem uma origem colonizadora  portuguesa onde “o céu parecia-lhes uma realidade excessivamente espiritual, remota, para interferir em seus negócios de cada dia”(2). Diferentemente de outras colonizações européias com influências calvinistas, que imperava a máxima descrita na Carta de Paulo aos Coríntios (10.31), onde “tudo devia ser feito para a glória de Deus”, no sentido da vida pública ser completamente influenciada pela fé. Outros aspectos da colonização portuguesa tiravam a dignidade do trabalho e desonrava a fé cristã, como a “busca por riqueza, mas a riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho. O espírito de aventura era nítido: os portugueses viviam uma ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas fáceis”(2). Parece muito com as teologias da prosperidade que atuam hoje, onde o indivíduo faz uma oferta de sacrifício e consegue obter, sem trabalho, a sua bênção. A proposta calvinista de fé e trabalho era bíblica, isto é, trabalhar para a glória de Deus, ou seja, como ao Senhor, produzindo com dedicação, sem as mazelas das vantagens tupiniquins. Fé e trabalho não se refere à uma mágica ociosa de resultados rápidos, mas à uma junção entre o privado e o público, fé e vida.

O processo de evangelização e culturalização dos pressupostos bíblicos numa nação é um processo doloroso e depende de vários fatores. Precisamos entender acima de tudo que a missão é de Deus, sempre! Mas temos que analisar os processos culturais do contexto em que estamos inseridos, para fazermos as pontes necessárias entre os princípios bíblicos e a contemporaneidade. A influência colonizadora no Brasil tem gerado desgastes imensuráveis no contexto da pregação e ensino da Palavra de Deus, pois a separação entre o privado e o público, isto é, fé e vida, faz com que Deus seja reduzido ao lar e à igreja. A vida passa a ser uma dicotomia constante, onde trabalho se torna um ambiente secular e profane que não cabe Deus e sua Palavra.


Notas Bibliográficas:

(1) PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta. Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2004.

(2) HOLADA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Editora Schwarcz, 2016.

Sobre o autor:

Michel Augusto é um cristão reformado calvinista. Pastor e teólogo. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia. É professor de Teologia Pastoral na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF. Áreas de pesquisa: Teologia Pastoral (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

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