Michel Augusto

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Desafios pastorais no contexto da espiritualidade do século XXI

Por Michel Augusto

         Tarefa difícil é definir a pós-modernidade, pois ainda vivemos com os resquícios da modernidade e em toda cultura há uma herança colonizadora que acompanha o desenvolvimento da  sociedade, trazendo assim uma mistura de características infindáveis. Mas existe algo bem latente no presente período que é a abertura para a espiritualidade, seja ela qual for. Tal abertura é boa, pois possibilita uma fluidez maior na expansão do Evangelho, mas pode se tornar uma arma apontada para a cabeça, caso não definirmos a fé de forma objetivamente bíblica e experencialmente baseada na mesma bíblia. Quando digo objetiva, não estou excluindo o Espírito Santo, mas reafirmando-o, pois Ele é o autor das Escrituras (2 Pe 1.21; 2 Tm 3.14-16). Sendo assim, segue alguns desafios para a pastoral do século XXI no tocante à espiritualidade.

  1. Fé objetiva e experencial. A busca por experiências espirituais sem embasamento bíblico e teológico são a causa de tantas distorções no meio evangélico atual. A vida cristã é formada por teoria e prática, por questões objetivas e também experenciais, mas tudo em conjunto. Objetiva, pois é formada pelas Escrituras Sagradas. Experencial, pela necessidade de aplicar no dia-a-dia os princípios bíblicos da comunhão vertical e horizontal, típicos de uma vida regenerada por Cristo.

  2. Fé emotiva e fé bíblica. Definir espiritualidade é uma tarefa árdua, pois existe um conceito enganoso no mundo evangélico de que viver a espiritualidade cristã é ter sensações transcendentais. A emoção faz parte da vida, mas é insuficiente para definição de espiritualidade. Espiritualidade cristã é um termo praticamente novo no mundo teológico. Significa basicamente o modo de viver como corpo de Cristo, no contexto interno ou externo do ajuntamento de crentes. Tem como fundamento as ações de Jesus nos Evangelhos. É desenvolvida no contexto do culto, da comunhão, oração e partir do pão tendo como centro a vida, obra, ressurreição e esperança vindoura do retorno glorioso de Cristo (At 2.42 ss).

  3. A espiritualidade e a contemporaneidade. A pós-modernidade tem como características o individualismo, que nega a autoridade. Apesar de discordar do Leandro Karnal em muitos pontos, o mesmo traz considerações relevantes. Ao citar Agostinho de Hipona, numa análise sobre Baumann, conseguiu definir muito bem a contemponeidade. Destaca que “cada pessoa seleciona na bíblia o que quer e rejeita o que não quer. A fé é customizada, adaptada ao nosso interesse. O achismo é a autoridade na contemporaneidade, onde Deus se torna menos autoritário[1]”.

        A espiritualidade cristã precisa ser saudável, e somente será, caso entendamos que ser espiritual é viver conforme Cristo, para glória de Deus (1 Co 10.31). Viver conforme Cristo é viver conforme Sua Palavra. Por isso, fujamos da espiritualidade emocionalista pura e customizada, para que a nossa vida não se torne um jogo de achismos e experiências sem fundamentos, destituídas do fundamento, que é Cristo, encarnado, morto, ressuscitado e entronizado.

Michel Augusto é um cristão reformado calvinista. Pastor e teólogo. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia.

É professor de Teologia Pastoral na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF.

Áreas de pesquisa: Teologia Pastoral (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

[1] Palestra: Vazio Contemporâneo e Espiritualidade. Disponível em: https://youtu.be/JF5NvKPjtpU

 

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