Michel Augusto

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A epistemologia do desigrejamento

Reflexão Teológica

Por Michel Augusto

Considerações iniciais

O desigrejamento tem se tornado uma realidade no contexto evangelical brasileiro. O nominalismo, outrora latente no catolicismo romano, tornou-se o discurso recorrente de uma multidão de pessoas que expõem suas angústias e decepções eclesiáticas e relacionais nas atuais mídias sociais. As mídias antigas (televisão e rádio) eram os meios em que os sem igreja se ancoravam, mas agora, a fé tem sido buscada e ancorada vivencialmente nas redes, tais como: facebook, twiter, youtube, soundcloud e outras. A fé ganhou uma dimensão virtualizada, gerando oportunidades de discursão, debate e abertura teológica para os leigos. A teologia sempre fez parte da vida do povo de Deus, mas agora ela ganhou uma dimensão pública jamais vista, seja por meio de teólogos formados que se tornaram formadores de opinião na mídia ou por “teólogos” leigos de internet, que se expressam avidamente defendendo formas alternativas de vivência da fé.

A epistemologia do desigrejamento

O desigrejamento sempre existiu na história da igreja. Dado o crescimento da população evangélica no Brasil, a realidade dos “sem igreja” se tornou mais latente. O processo pelo qual o desencantamento com a fé presencial ocorre, passa pela via da decepção eclesiástica, questões de relacionamento interpessoais e também em detrimento das características da pós-modernidade, como salienta Bauman[1], ao escrever sobre a “sociedade líquida”.

O contexto pluralista da sociedade influencia o pensamento contrário à figura tradicional de culto cristão. A imagem da autoridade é confrontada com a autonomia e a respectiva rejeição da tradição. Isso contradiz o método teológico proposto por Agostinho “baseado numa tríplice autoridade: Escritura Sagrada, tradição e igreja[2]”. “Nessa cultura, um apelo à Bíblia é simplesmente uma expressão da escolha pessoal da autoridade particular dentre as muitas que estão disponíveis[3]”. Outro fator, usando uma linguagem pedagógica, está adstrito aos termos “pupilo” e “estudante”. O termo “pupilo” foi quase totalmente “suprimido da língua inglesa usual, substituído pelo termo “estudante”. Ambas palavras tem conotações diferentes. Um pupilo deve saber e aprender, para seu próprio bem; um estudante já é maduro o suficiente para seguir suas próprias inclinações[4]”. Chesterton nos lembra que “a grande marca de nossa modernidade é a insistência em propor substitutos para as coisas antigas[5]”. O desigrejamento passa pelo pressuposto de um mundo bastante amadurecido para ter que continuar aprendendo através de um mestre igrejeiro.

Parte disso é fruto também da tentativa de demolição da autoridade das Escrituras, tornando a prática congregacional cada dia mais difícil. A Palavra de Deus deveria constituir “o ponto de referência final para o pensamento, desejo, ação, amor e ódio do homem por sua cultura, bem como por seu culto[6]”, mas devido à herança liberal e neo-ortodoxa, a Bíblia deixa de ser na sua totalidade, a Palavra de Deus, levando o povo a viver uma prática subjetivista experencialista, não importando com a verdade objetiva e lógica anunciada em outras gerações. A questão da autoridade bíblica é recorrente nesse ciclo epistemológico do desigrejamento, pois o abandono da teologia da criação e os reflexos sistemáticos do pecado adâmico e a salvação em Jesus levam o homem a ser guiado pela ideia de um “espírito nacional autônomo que, em sua individualidade absoluta, é sua própria lei e norma, deixando de ver a comunidade temporal como a totalidade das relações humanas[7]”. “A geração mais jovem hoje mal se dá conta do tremendo débito que o pensamento ocidental tem para com a herança bíblica ou de quão longe a cultura moderna vagueia e deriva, para longe das fundações das Escrituras[8]”.

A cosmovisão cristã é um desafio constante da pastoral e essa defesa tem sido negligenciada e enfraquecida por um discurso pragmático, gerando assim um ambiente fértil para o ambiente pós-modernista, que possui resquícios modernistas. O fruto de tudo isso é a desconstrução da imagem do povo de Deus como o povo teísta bíblico. “A filosofia moderna substituiu o teísmo bíblico da revelação pelo teísmo especulativo, onde a argumentação acontece a partir da mente e consciência do homem[9]”. A cosmovisão bíblica passa pelo entendimento da queda original, que foi caracterizada por “um desejo de independência, fazendo com que o homem preferisse a própria vontade no lugar da vontade de Deus. “O Bispo de Hipona observa que “a alma (humana), ávida de eternidade porém sobressaltada pela fugacidade da existência, luta contra o sublime esplendor da autoridade divina[10]”. Somente a graça conseguiu desarticular essa nova lógica estabelecida após a queda[11]”. David Naugle contribui dizendo que “afirmar o senhorio de Cristo sobre a vida e a filosofia, em outras palavras, é uma função da regeneração (Jo 3). Afirmar Jesus como Senhor da filosofia é uma posição radicalmente contracultural[12]”. No entanto, esse homem nascido de novo, embora seja capaz de obedecer pela justiça e obediência de Cristo, vive na tensão constante em viver por si só, necessitando de admoestações constantes, como é o caso do contexto da carta aos Hebreus.

Argumenta-se que o desigrejamento tem acontecido em virtude da falta de prática comunitária. De fato, “as pessoas da nossa época, em todo o mundo, não darão ouvidos à igreja se a mesma tiver a doutrina e a forma de organizações corretas, e não demonstrar a prática comunitária[13]”. Por outro lado, o contexto do abandono das comunidades acontece também em lugares onde a prática horizontal é concretizada perfeitamente. Lembrando que, vivência comunitária cristã envolve o fator da disciplina bíblica, e onde há restrições libertárias, o fator humanístico pode em algum momento gritar e prevalecer. “A fúria libertária busca se livrar de tudo aquilo que “oprime”: leis morais, família, tradições religiosas, governo, leis da natureza, envelhecimento, dor etc[14]”.

Os pressupostos do desigrejamento estão ligados também ao contexto do mundo pós-moderno espiritualizado. A espiritualidade bíblica tem contornos verticais e horizontais que são uma afronta para o homem autônomo. A liberdade limitada que é proposta pelo Evangelho se torna um absurdo para o modo de viver ocidental, que está “encantado com a civilização[15]”, e com uma infinidade de escolhas de espiritualidades menos “opressoras”. A espiritualidade que mais atrai é aquela que não há ônus, onde “Deus existe para o prazer da humanidade[16]”.

Considerações finais

 A história da igreja revela muitos desafios enfrentados, de forma cíclica e recorrente. Os desafios permanecem, apenas mudando de nome ou com ressignificados. Embora o presente momento tenha uma tendência espiritualista, o secularismo ainda continua agindo, numa consistência de devoção quase religiosa a “coisas ou processos, dentre os quais destaca-se a obsessão com a sexualidade, a confiança no Estado-nação, a crença nos processos tecnológicos, a fixação por entretenimento e esportes e o desejo de bens materiais”.

A pastoral no século XXI tem inúmeros desafios, dentre eles, o de adotar um labor teológico conforme Agostinho, que “ultrapassou todas as éticas relativistas, formalistas, materialistas, idealistas e racionalistas. Só Cristo, com Cristo e em Cristo pode a virtude humana, não se corromper neste mundo e lograr a felicidade do reino[17]”. Viver a dimensão cristã sem o âmbito horizontal é incoerente com a própria missão encarnacional do Senhor, que experimentou na carne todo o dissabor relacional.

 

Sobre o autor

Michel Augusto é pastor e teólogo. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia.

É professor de Teologia Prática na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF.

Áreas de pesquisa: Teologia Pastoral (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

Referências

AGOSTINHO, Santo. Sobre o sermão do Senhor na montanha. São Paulo, 2016.

BAUMAN, Zigmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de. O dualismo natureza/graça e a influência do humanismo secular no pensamento social cristão. In: LEITE, Cláudio Antônio Cardoso; CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de; CUNHA, Maurício José Silva. Cosmovisão cristã e transformação. Espiritualidade, razão e ordem social. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2006.

CHESTERTON, G. K. O que há de errado no mundo. Campinas, SP: Editora Ecclesiae, 2013.

DALRYMPLE, Theodore. Em defesa do preconceito. A necessidade de ser ideias preconcebidas. São Paulo: Editora É Realizações, 2015.

DOOYEWEERD, Herman. Raízes da cultura ocidental. As opções pagã, secular e cristã. Uma cuidadosa avaliação das forças motrizes religiosas mais profundas por trás de todo desenvolvimento cultural e espiritual no ocidente. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2015.

GROESCHEL, Craig. O cristão ateu. Crendo em Deus, mas vivendo como se ele não existisse. São Paulo: Editora Vida, 2012.

HENRY, Carl. O resgate da fé cristã. Brasília: Editora Monergismo, 2014.

HORTON, Michael. Cristianismo sem Cristo. O evangelho alternative da igreja atual. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

JANSENIUS, Cornelius. Discurso da reforma do homem interior. São Paulo: Editora Filocalia, 2016.

NAUGLE, David K. Filosofia. Uma guia para estudantes. Mantendo a tradição intelectual cristã. Brasília: Editora Monergismo, 2014.

NEWBIGIN, Lesslie. O Evangelho numa sociedade pluralista. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2016.

SCHAEFFER, Francis. A igreja do século XXI. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

STEVENS, R. Paul; GREEN, Michael. Espiritualidade bíblica. A bíblica como fonte da verdadeira espiritualidade para o seu dia a dia. Brasília: Editora Palavra, 2008.

TIL, Henry R. Van. Conceito calvinista de cultura. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

________________

[1] BAUMAN, Zigmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

[2] AGOSTINHO, Santo. Sobre o sermão do Senhor na montanha. São Paulo, 2016, p. 9

[3] NEWBIGIN, Lesslie. O Evangelho numa sociedade pluralista. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2016, p. 62.

[4] DALRYMPLE, Theodore. Em defesa do preconceito. A necessidade de ser ideias preconcebidas. São Paulo: Editora É Realizações, 2015, p. 31.

[5] CHESTERTON, G. K. O que há de errado no mundo. Campinas, SP: Editora Ecclesiae, 2013, p. 103.

[6] TIL, Henry R. Van. Conceito calvinista de cultura. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 187.

[7] DOOYEWEERD, Herman. Raízes da cultura ocidental. As opções pagã, secular e cristã. Uma cuidadosa avaliação das forças motrizes religiosas mais profundas por trás de todo desenvolvimento cultural e espiritual no ocidente. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2015, p. 202.

[8] HENRY, Carl. O resgate da fé cristã. Brasília: Editora Monergismo, 2014, p. 30.

[9] HENRY, 2014, p. 32.

[10] AGOSTINHO, 2016, p. 11.

[11] JANSENIUS, Cornelius. Discurso da reforma do homem interior. São Paulo: Editora Filocalia, 2016, p. 41.

[12] NAUGLE, David K. Filosofia. Uma guia para estudantes. Mantendo a tradição intelectual cristã. Brasília: Editora Monergismo, 2014, p. 25.

[13] SCHAEFFER, Francis. A igreja do século XXI. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 65.

[14] CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de. O dualismo natureza/graça e a influência do humanismo secular no pensamento social cristão. In: LEITE, Cláudio Antônio Cardoso; CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de; CUNHA, Maurício José Silva. Cosmovisão cristã e transformação. Espiritualidade, razão e ordem social. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2006, p.131.

[15] STEVENS, R. Paul; GREEN, Michael. Espiritualidade bíblica. A bíblica como fonte da verdadeira espiritualidade para o seu dia a dia. Brasília: Editora Palavra, 2008, p.14.

[16] HORTON, Michael. Cristianismo sem Cristo. O evangelho alternative da igreja atual. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 26.

[17] AGOSTINHO, 2016. 10.

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