Michel Augusto

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A pregação do evangelho e as espiritualidades pós-modernas

Michel Augusto

Breve Reflexão Teológica

Embora haja uma dificuldade de definir o termo espiritualidade cristã em detrimento das inúmeras abordagens possíveis na história do cristianismo, é importante que se traga uma definição básica da mesma. “Esta seria o relacionamento profundo com Deus Pai, mediado pela cruz de Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo[1]”. Seria melhor falar de discipulado do que espiritualidade, pois o termo abrange noções dos “cristãos da Idade Média como modelo para hoje[2]”. No entanto, usaremos o termo com muita cautela, traçando distintivos, por exemplo, entre esta e a mística. Misticismo é uma “abordagem à fé cristã que enfatiza especialmente o aspecto relacional, espiritual ou experimental da fé, em contraste com os aspectos mais cognitivos ou intelectuais, tradicionalmente atribuídos ao campo da teologia[3]”.

 Embora o termo “mística” tenha um teor religioso subjetivo, McGrath lembra que “Calvino não teve dificuldade em usar o termo unio mystica (“união mística”) para referir-se ao relacionamento entre Cristo e o indivíduo cristão[4]”. Observe que Calvino delimitou o termo, algo que não tem sido feito na atualidade. A terminologia “mística” tem sido usada no campo da experiência religiosa em contraste com aspectos objetivos da fé bíblica. Assim sendo, embora a espiritualidade cristã não possa ser limitada apenas a conceitos, a proposta deste trabalho parte do pressuposto que a espiritualidade precisa ter contornos teológicos, ou seja, precisa ser bem definida para se distinguir o que é Evangelho e pluralismo religioso no contexto da pregação e respectivas implicações práticas ao mundo pós-moderno.

A espiritualidade cristã no contexto das implicações práticas do sermão não tem como ser desvinculada das doutrinas bíblicas. Prática sem doutrina é um ambiente fértil para os méritos humanos. A “falta da ênfase na justificação pela fé em Cristo, pela graça, sem as obras ou méritos humanos e na doutrina da regeneração tem conduzido à ideia da religiosidade natural[5]”, isto é, uma prática sem a necessidade do intermediário redentor.

A influência que os ouvintes recebem do contexto pós-modernista no tocante às inúmeras espiritualidades, deve levar o pregador a ser tornar cauteloso na aplicação da mensagem. O subjetivismo de quem ouve deve ser confrontado com definições precisas para que o mesmo tenha uma prática que seja correspondente ao Evangelho. “O pragmatismo sucumbiu à noção humanista de que o homem existe para sua propria satisfação. O humanismo ensina que, para as pessoas serem felizes, elas devem ter todas as suas necessidades e desejos satisfeitos[6]”. O mundo atual é altamente espiritualizado, gerando assim uma confusão daquilo que a mensagem ouvida quis dizer necessariamente, caso não haja contornos bem definidos. “Embora a verdade objetiva possa estar fora de moda entre pós-modernistas, a espiritualidade está na moda[7]”.

Uma dose forte de clareza na aplicação evitará que os contornos do pluralismo religioso confunda os propósitos da pregação ouvida. O ambiente midiático tem favorecido a proliferação de uma mensagem confortável aos ouvidos, mas que ignora o teor do kerigma. O conteúdo querigmático consiste em “proclamar a morte, ressurreição e exaltação de Jesus, considerando-o como Senhor e Cristo, convocando o ouvinte ao arrependimento e ao recebimento de perdão de pecados[8]”. Quando nos reportamos aos reformadores e puritanos, Paulo Anglada nos informa que: “eles queriam, através da pregação, informar o intelecto, mover as afeições e motivar a vontade e além de tudo isso, o coração, e isso eles buscavam, não por meio de manipulação retórica da audiência, mas através da pregação fiel da Palavra de Deus. Lutero resume o propósito da pregação em “estimular os pecadores a sentirem seus pecados e despertar neles o desejo pelo tesouro do Evangelho[9]”.

A pregação é fundamentalmente teórica e prática, pois a Bíblia contém a “descrição da vida real, da verdadeira verdade. Ela é uma série de cartas do Criador à criatura, trazendo informações necessárias sobre o nosso ser, vida e vocação[10]”. A pregação é prática, pois é a nossa vida sendo expressa em páginas inspiradas pelo Senhor. No entanto, textos usados como pretexto e fora do contexto, podem gerar um tipo de pregação que agrada o público em suas necessidades egoístas ou levá-los a um relacionamento doentio e formar uma espiritualidade sem contornos bíblicos.

A espiritualidade do cristão, a partir do viés bíblico, aponta para a forma pela qual o mesmo “experimenta em sua vida a verdade bíblica, a doutrina cristã, isto é, qual deve ser a meta da vida cristã e como o mesmo deve aplicar a verdade divina a todo o âmbito da experiência pessoal e tudo que o cerca[11]”. Isso é diferente de uma mensagem que apela para a consciência religiosa do ouvinte, deixando o subjetivismo pós-moderno completar o pensamento da mensagem. “As espiritualidades alternativas foram para o oriente descobrir o misticismo e retornaram com uma religião híbrida relativista, um certo monismo pagão, que se perfaz no ideal do igualitarismo autônomo[12]”.

O desafio da contextualização é uma linha tênue entre a necessidade das implicações práticas e o pluralismo religioso. A igreja, através da mídia tem a oportunidade de anunciar o Evangelho como também se tornar mais um ramo religioso que oferta soluções rápidas para o público, que confunde o mesmo com uma mensagem pluralista, sem contornos querigmáticos. O pregador midiático deve estar atento para não cair na vala comum atual. “O bem-estar espiritual dos outros reclama que o pregador não obscureça o pensamento com um idealismo abstrato, que não perturba ninguém e nem tenha potencial para colocar os ouvintes em dificuldade[13]”. David Helm contribui, dizendo: “um dos problemas com a pregação contextualizada hoje é que muitas vezes ela tem recebido a ênfase errada. Ao elevar a contextualização ao nível de uma disciplina focada exageradamente em resultados práticos, alguns pregadores tratam o texto bíblico de maneira casual e indiferente. Esse é o problema da adesão cega. A partir do desejo saudável de fazer progredir a missão da igreja, o pregador concentra sua preparação exclusivamente em aspectos criativos e artísticos para tornar seu sermão relevante[14]”.

A abordagem prática do sermão precisa ser bem distinta do que a contemporaneidade relativista impõe. No contexto societário líquido, “a verdade precisa ser abordada com suficiente nitidez para “iluminar” o sentimento, prática, disposição ou necessidade, caso contrário, não será eficaz[15]”. 

Por um lado temos a espiritualidade do neopentecostalismo, que tem confundido a aplicação contextual bíblica com satisfação de um público que trata a igreja como supermercado e faz o uso da espiritualidade no campo da subjetivo, apenas. Nesse viés, “ao relacionar o sermão aos problemas e necessidades humanas[16]”, e anseios espiritualistas, a consequência é o esvaziamento na “crença da singularidade de Cristo e a respectiva experiência de Cristo através do Espírito Santo, à vida transformada ou o testemunho do Espírito como meios de certificação[17]”.

Por outro lado, a espiritualidade pós-moderna, embora não trabalhe a verdade objetiva, trouxe alguns resquícios do liberalismo teológico, que tem transformado a pregação numa proclamação religiosa desprovida do conceito de espiritualidade bíblica. Nesse contexto, as implicações práticas do sermão são influenciadas por ideologias do pseudo-cristianismo liberal, que insiste em produzir os seus efeitos danosos à igreja do Senhor. No século XIX, “nacionalismo, evolucionismo, materialismo e liberalismo teológico produziram grande devastação na igreja. O iluminismo, com seu ponto de vista centrado no homem, considerou a razão humana e juiz de tudo[18]”. Alistair Begg relata que: “A ausência da pregação expositiva está relacionada diretamente a uma erosão da confiança na autoridade e na suficiência das Escrituras. No início do século XIX, as linhas de batalha foram dirigidas contra as forças do liberalismo. Os liberais estavam desafiando os milagres, questionando as coisas divinas e se opondo à historicidade dos documentos do Novo Testamento. As Escrituras são negligenciadas, depreciadas e usadas apenas como um trampolim para todos os tipos de “conversas” que estão muito distantes da genuína exposição bíblica[19]“.

A pregação deve levar em consideração o contexto cultural para que as implicações práticas possam ser delineadas com mais facilidade. No entanto, o “texto da Escritura deve ser nossa atenção principal e não a cultura. Não estamos falando sobre transformação cultural ou renovação cultural, mas de pregar o evangelho para os pecadores[20]”. A pregação do Evangelho não depende da acomodação pós-moderna no sentido de ter que ser render à hostilidade relativista, pluralista e espiritualista, mesmo porque “em face da diversidade cultural, os cristãos devem expressar a autoridade transcultural da Bíblia, porque eles são os únicos no planeta com uma mensagem destinada a todos[21]”. Jilton Morais traz uma riquíssima contribuição ao dizer que: “Nesse tempo de relativismo e apostasia, a utilidade da comunicação sacra começa a ser questionada. E cabe a nós, pregadores, proclamarmos com tal relevância, para que o sermão sirva realmente. E o sermão se torna útil quando, começando na pessoa do pregador e alcançando os ouvintes, é proferido e ouvido não como peça retórica, a arrancar aplausos da plateia, mas palavra de Deus, que muitas vezes arranca lágrimas[22]”.

 O termo relevância tem se tornado pejorativo e pode levar o pregador a viver como garçom espiritual. Caso o mesmo não consiga entender o que é implicação prática do ponto de vista bíblico e as exigências pós-modernas ligadas ao anseio do povo. “A Bíblia é kerygma, proclamação, discurso relevante, apelo[23]”. Relevância é confundida com uma apresentação prática do Evangelho que considere o ouvinte acima de tudo. De fato, o ouvinte pós-moderno, diante do relativismo, pluralismo e espiritualidade aberta, tem exigido cada vez mais que hajam pregadores personalistas.

A ponte entre o mundo bíblico e a atualidade requer explicação e aplicação. “O problema que os pregadores enfrentam é como integrar a explicação e a aplicação para que todo o sermão seja compreendido como comunicação relevante[24]”. No contexto neopentecostal, a relevância é vista como um meio de preencher a necessidade do ouvinte, ainda que isso custe o propósito do sermão bíblico. No tocante ao meio influenciando pela teologia moderna liberal, a relevância se dá quando a mensagem se torna um meio religioso entre cultura e o indivíduo, formando assim uma espiritualidade fora das cercas da revelação divina.

 

Sobre o autor

Michel Augusto é pastor e teólogo. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia.

É professor de Teologia Prática na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF.

Áreas de pesquisa: Teologia Pastoral (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

Referências 

[1] FERREIRA, Franklin. Servos de Deus. Espiritualidade e teologia na história da igreja. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, p. 17.

[2] NICODEMUS, Augustus. O ateísmo cristão e outras ameaças à Igreja. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2011, p. 162.

[3] MCGRATH, Alister. Uma introdução à espiritualidade cristã. São Paulo: Editora Vida Acadêmica, 2008, p. 26.

[4] MCGRATH, 2008, p. 26.

[5] NICODEMUS, 2011, p. 165.

[6] MACARTHUR, John. Nossa suficiência em Cristo. Três influências letais que minam a sua vida espiritual. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2015, p. 144.

[7] CARSON, 2015, p. 144.

[8] STOTT, 2011, p. 36.

[9] ANGLADA, Paulo. Introdução à pregação reformada. Ananindeua, PA: Editora Knox, 2005, p. 188.

[10] SCHAEFFER, Francis. Não há gente sem importância. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009, p. 8.

[11] BEEKE, Joel. Espiritualidade Reformada. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, p. 552

[12] JONES, Peter. A ameaça pagã. Velhas heresias para uma nova era. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 35.

[13] CHAPELL, 2007, p. 243

[14] HELM, 2016, p.19.

[15] BROADUS, John A. Sobre a preparação e a entrega de sermões. São Paulo: Editora Hagnos, 2009, p. 177.

[16] BRAGA, 2005, p. 218.

[17] CARSON, 2015, p. 145.

[18] LOPES, Hernandes Dias. Pregação Expositiva. Sua importância para o crescimento da igreja. São Paulo: Editora Hagnos, 2010, p. 61.

[19] BEGG, Alister. Pregando para a glória de Deus. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, p. 25-26

[20] DEVER, Mark; DUNCAN, J. Ligon; MOHLER Jr., Albert R.; MAHANEY, C. J. A pregação da cruz. Um chamado à pregaçãoo expositiva e centrada no evangelho como foco do ministério pastoral. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 64-65.

[21] DEVER, 2010, p. 65.

[22] MORAIS, Jilton. Homilética. Do ouvinte à prática. São Paulo: Editora Vida Acadêmica, 2013, p. 296.

[23] GREIDANUS, Sidney. O pregador contemporâneo e o texto antigo. Interpretando e pregando literatura bíblica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 221.

[24] GREIDANUS, 2006, p. 223.

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