Michel Augusto

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A leitura da Bíblia e a função da teologia

Por Michel Augusto

É muito comum ouvirmos afirmações de pastores que dizem que lêem a Bíblia de forma intensa, mas com um ar de desprezo com a teologia. A leitura bíblica é necessária e indispensável, mesmo porque o testemunho interno do Espírito Santo nos conduz ao entendimento que essa reunião de livros é a verdade de Deus revelada ao homem, fazendo com que essa leitura traga uma compreensão da fé. No entanto, existem questões que precisam de um aprofundamento maior.

Neste contexto, percebemos um certo desprezo e falta de entendimento da necessidade da teologia como ferramenta no campo pastoral e igrejeiro para tal crescimento. Quando falo de teologia, me refiro especificamente à que usa o método histórico gramatical nas questões de interpretação.

A função do pastor e da igreja é teológica, sendo assim a leitura e estudo bíblico que ignora as ferramentas teológicas, pode se tornar arrogante, gerar uma desorganização das ideias e uma escrita emaranhada. Nesse contexto, podemos enumerar algumas funções da teologia como ferramentas para o leitor e praticante da Palavra de Deus:

  1. Sistematização. O leitor bíblico se torna direta ou indiretamente um formador de opinião e faz interpretações de suas leituras, exercendo uma função teológica “não oficial” na igreja, sociedade e cultura. Em determinados contextos denominacionais, onde não existe uma cultura teológica, não temos como exigir uma formalização teológica desse leitor contumaz, que muitas vezes exerce uma função pastoral. Mas em contextos onde a teologia faz parte da tradição, é importante que esse leitor se dedique aos estudos sistematizados que envolvem as inúmeras disciplinas teológicas. Há casos de alunos que saem de seminários sem a compreensão da função da teologia no contexto da leitura e prática bíblica e terão dificuldades de expressar o pensamento cristão e os desafios culturais da pós-modernidade.

  2. Cristalização. A teologia tem uma função de cristalizar a leitura bíblica. Levando em consideração o testemunho interno do Espírito Santo, ela organiza, sistematiza e traz clareza para uma discussão mais honesta e com menos “achismos”. Cristalizar não quer dizer que todas as controvérsias serão solucionadas, mas que os leitores conseguirão argumentar e organizar as ideias para si e para o próximo. Em períodos onde não existia uma teologia formalizada em termos acadêmicos ou de seminários, ela acontecia através da catequese intensa para pastores e leigos, isto é, somos indesculpáveis diante do conhecimento.

  3. Cosmovisão. Temos várias cosmovisões agindo no mundo concomitantemente: teísta, cristã teísta, ateísta, deísta, panteísta e assim por diante. A sistematização e cristalização da leitura bíblica através da teologia, faz com que tenhamos condições de criar quadros de identificação do que seja realmente condizente com as Escrituras Sagradas e uma cosmovisão cristã teísta. Partindo do pressuposto que temos a Bíblia como revelação de Deus, a nossa lente para analisar o mundo, sociedade e cultura não pode partir de outro ponto. A teologia e a respectiva metodologia  adotada nos ajuda a olhar, comparar e diferenciar as cosmovisões.

  4. Apologética. O mundo passa por transformações que exigem respostas do povo de Deus. Uma leitura bíblica pura e simples trará elementos capazes de gerar um ambiente apologético, mas se aprofundada com a ferramenta teológica adequada, capacita o obreiro para uma cosmovisão mais contundente na pós-modernidade. Douglas Groothuis[1], afirma que “qualquer teologia, apologética, ética, evangelismo ou prática da igreja que minimize ou degrina o conceito de verdade objetiva, absoluta, universal e conhecível é tanto irracional quanto não-bíblica. E tal deve ser rejeitada e dela arrependida. Assim, a visão pós-modernista da verdade como socialmente construída, contingente e relativa deve ser rejeitada pelos apologistas cristãos. Qualquer coisa que poderia ser verdadeira no pós-modernismo pode ser encontrada em outro lugar, em sistemas filosóficos melhores. O que é falso no pós-modernismo (a vasta maioria dele) é fatal ao testemunho cristão. Sem uma visão forte e bíblica da verdade, a apologética é impossível[2]”.

Vivemos num contexto plural religioso, onde inúmeras cosmovisões operam na sociedade, formando uma imensidão de ideias. A teologia, desde que comprometida com a Bíblia, como Palavra de Deus, e adote uma metodologia que coloque Cristo no centro, é importante, pois identifica, qualifica e distingue essas inúmeras apresentações do cristianismo bíblico e cristocêntrico. Uma leitura da Bíblia é suficiente, pois temos o testemunho interno do Espírito Santo, mas pode ser potencializada com a sistematização e cristalização que a  boa teologia oferece.

Michel Augusto é pastor e teólogo. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia.

É professor de Teologia Prática na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF.

Áreas de pesquisa: Teologia Pastoral (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

[1] Douglas Groothuis é professor de filosofia no Denver Seminary. Coordena o curso de apologética cristã e ética e dirige o Gordon Lewis Center for Christian Thought and Culture. Obteve seu PhD em filosofia na University of Oregon em 1993, e está no Denver Seminary desde então.

[2] Traduzido por Mateus Scherer Cardoso. Texto extraído: www.tuporem.com.br

 

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