Michel Augusto

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Debate Fictício entre o Conservador John Grecham Machen e Teólogos Liberais Modernos

Adaptado e Moderado por : Michel Augusto

Moderador: Bom dia. Queria agradecer a presença de vocês neste debate. Será proveitoso para os seminaristas, pastores e professores presentes e os que nos acompanharão pelas redes sociais e sites que divulgam temas teológicos. Bom, a primeira pergunta é: Qual é a raiz do movimento liberal moderno?

Machen: Bom dia. Estou feliz em estar aqui com vocês. Espero que possa contribuir para esse momento. Respondendo a pergunta, vejo que ainda que o movimento se mostre multifacetado, a raiz do movimento é única; as muitas variedades da religião liberal moderna estão enraizadas no naturalismo, ou seja, na negação de qualquer intervenção do poder criativo de Deus (distinto do curso normal da natureza) em conexão com a origem do Cristianismo. A palavra “naturalismo” é usada diferente de seu sentido filosófico. Nesse sentido não filosófico, ela descreve com precisão a raiz verdadeira daquilo que designa, religião “liberal”, ainda que possa se tornar uma degradação de uma palavra originalmente nobre.

Teólogo liberal: Bom dia. Estou contente de estar com vocês aqui. O movimento busca resgatar certezas de princípios religiosos gerais para extrair a essência do cristianismo. Nosso interesse é pela paz e se nos atermos às doutrinas bíblicas, jamais conseguiremos.

Machen: Bom, discordo que o cristianismo possa ser resgatado pelo liberalismo, pois o mesmo não somente é uma religião diferente do cristianismo, mas pertence a uma classe totalmente diferente de religiões. O liberalismo não descobre a essência do cristianismo, mas renuncia a tudo o que é peculiar ao cristianismo, deixando somente aquele tipo indefinido de aspiração religiosa.

Moderador: Falando de doutrinas, esse aspecto é o ponto mais tenso entre o cristianismo bíblico e o liberalismo?

Machen: De fato, há uma hostilidade moderna à doutrina. Desconfio que há uma rejeição de uma doutrina específica para o benefício de outra. As posições liberais são defendidas com tanto rigor quanto qualquer doutrina encontrada nos credos históricos. O pregador liberal, muitas vezes, está somente rejeitando um sistema teológico e o trocando por outro. Assim, a tão sonhada imunidade de controvérsias teológicas não é alcançada.

Teólogo liberal: Entendemos que o cristianismo é um estilo de vida e não uma doutrina. Essa é a religião liberal. A religião ideal deve ser um estilo de vida.

Machen: Bom, de acordo com o conceito cristão, uma crença não é meramente a expressão de uma experiência cristã, muito pelo contrário, é o estabelecimento de fatos nos quais a experiência se baseia. Dizer que o cristianismo parte da experiência é desonestidade, pois existem documentos e uma história bem definida que validam os seus pressupostos. Não era somente um estilo de vida, mas uma vida fundamentada numa mensagem, onde a doutrina era e é o fundamento. O cristianismo para Paulo não era somente um estilo de vida, mas também uma doutrina, que obviamente veio primeiro. Paulo não era defensor de uma religião sem dogmas; ele estava interessado, acima de tudo, na verdade objetiva e universal da mensagem.

Moderador: E em relação a Paulo e Jesus? Como se estabelece essa relação?

Teólogo liberal: A nossa chave hermenêutica é Jesus, enquanto a dos conservadores é Paulo. Jesus é o nosso humilde mestre de justiça. Existe uma ética no discurso de Jesus que independe de doutrinas. É isso que seguimos.

 Machen: O problema do pregador liberal moderno é desconsiderar que Paulo não estava apenas interessado nos princípios éticos de Jesus; não estava somente interessado nos princípios gerais da religião ou da ética. Pelo contrário, estava interessado na obra redentora de Cristo e seus efeitos sobre nós. Seu interesse prioritário era na doutrina cristã, não como pressuposições, mas como seu centro. Se o cristianismo deve se tornar independente da doutrina, então a teologia de Paulo deve ser removida dele em sua totalidade.

Teólogo liberal: Entendemos que Paulo ao introduzir elementos doutrinários na vida da igreja, estava corrompendo o cristianismo primitivo. Paulo introduziu um princípio absolutamente novo no movimento cristão, isto é, fundou uma nova religião. Ainda é possível achar em Jesus a religião simples e não doutrinária que desejamos.

 Machen: Discordo do nobre colega, pois as epístolas paulinas comprovam uma unidade de princípio fundamental entre Paulo e os seguidores originais de Jesus, e se essa unidade for removida, toda a história das origens da igreja se torna sem sentido. Paulo não foi um inovador quanto ao caráter fundamentalmente doutrinário do cristianismo. É tanto que em 1Co 15.3-7, Paulo resume a tradição que recebeu da igreja primitiva. A igreja primitiva não estava interessada naquilo que Jesus falou, mas primeiramente naquilo que Jesus fez. O mundo seria redimido pela proclamação de um evento; e com o evento, seguia o seu significado; e o estabelecimento do evento, com seu significado, era uma doutrina. Esses dois elementos estão sempre juntos na mensagem cristã. A narração dos fatos é um fator histórico; a narração dos fatos com seus significados é a doutrina. Se a doutrina for abandonada, então até a igreja primitiva de Jerusalém, assim como sua mensagem sobre a ressurreição, deve ser abandonada.

Teólogo liberal: meu caro colega, aquilo que deu força ao cristianismo durante os séculos era uma bobagem. Os iniciadores do movimento interpretaram mal o significado da vida e da obra de seu mestre e deixaram aos cristãos de hoje o privilégio de perceber esse erro inicial.

Moderador: O liberalismo fala de Jesus, com ênfase numa espiritualidade do mestre da ética vivencial. Isso se parece com o cristianismo?

Machen: Olha, é improvável que o liberalismo possa ser identificado com o cristianismo autêntico. Se os primeiros discípulos de Jesus se desviaram tanto de seu Mestre, a melhor opção de terminologia nos levaria a dizer simplesmente que Jesus não foi o fundador do cristianismo, mas sim de uma religião simples e não doutrinária, há muito esquecida, porém redescoberta pelo homem moderno. Ainda assim o contraste entre liberalismo e cristianismo apareceria. No entanto, essa condição estranha não prevalece. Os discípulos não estavam se desviando dos ensinos de seu Mestre ao basear o cristianismo em um evento. Jesus não se limitou ao anúncio de princípios gerais de religião e ética. A imagem de Jesus não pode ser confundida com um sábio tal como Confúcio.

Teólogo liberal: Colega, digo e repito: o ensino de Jesus não está enraizado em doutrina. Jesus manteve sua pessoa fora do seu Evangelho, e apresentou-se como o supremo profeta de Deus. Jesus era promotor de uma religião pura, sem formas e doutrinas.

Machen: É incrível a sutileza do liberalismo. Reafirmo que há um abismo entre o cristianismo e o liberalismo. Um mestre judeu do primeiro século jamais poderá satisfazer os anseios de nossas almas. Vista-o com toda a arte da pesquisa moderna; lance sobre ele a calorosa e enganosa luz dos refletores do sentimentalismo moderno; e apesar de tudo isso, o bom senso voltará com toda força, e nosso breve momento de autoengano – ainda que tenhamos estado com Jesus – se desfará completamente, dando lugar à vingança da desilusão desesperada.

Teólogo liberal: Meu caro, mas ao nos satisfazermos com o Jesus histórico, o grande mestre que proclamou o reino de Deus, não estamos restaurando a simplicidade do Evangelho primitivo?

 Machen: Querido colega, eu diria que não. Estaremos realmente voltando a um estágio bem primitivo da igreja. Mas esse estágio não é a Galiléia durante a primavera, pois na Galiléia as pessoas tinham um Salvador vivo. Houve um momento, e somente um momento, em que os discípulos viveram, como você, da mera lembrança de Jesus. E que momento foi esse? Foi um momento de melancolia e desespero. Isso aconteceu nos três dias de tristeza, depois da crucificação. Ali, e somente ali, os discípulos consideraram Jesus simplesmente como uma abençoada memória. Eles disseram: “Nós acreditávamos que era ele quem iria redimir Israel”. Confiamos – mas agora nossa confiança se foi. Deveríamos ficar, com liberalismo moderno, para vivermos para sempre na melancholia daqueles tristes dias? Ou deveríamos passar disso para o consolo e alegria do que aconteceu em Pentecostes?

 

Moderador: Estamos com o nosso tempo esgotado, mas o público tem uma pergunta: “É possível ter uma religião não doutrinária?

 

Teólogo liberal: Sim é possível. Esse é um dos papéis do liberalismo. Mesmo porque a própria consciência messiânica de Jesus é obscura. Então preferimos reter o signicado não doutrinário acerca de Jesus, como um mestre puro da justiça.

Machen: Discordo meu querido amigo. A consciência messiânica de Jesus não está enraizada somente nas fontes como documentos, mas se encontra na própria base de todo o edifício da igreja. Quando o relato dos evangelhos é observado, vê-se que a consciência messiânica de Jesus está em todo lugar. Mesmo aquelas partes dos evangelhos que têm sido consideradas puramente éticas, verifica-se que estão baseadas totalmente nas elevadas reinvindicações de Jesus. O Sermão do Monte, corretamente interpretado, faz do homem um perseguidor de um meio divino de salvação pelo qual a entrada no Reino de Deus pode ser obtida.

Teólogo liberal: Bom, o modo de vida de Jesus é o nosso alvo e isso basta. Essa é a nossa religião, que independe de doutrina. Doutrina divide! O que queremos é uma religião livre que dê liberdade ao homem para viver como Jesus viveu, o mestre por excelência, mas sem as cercas impostas por Paulo.

Machen: Queria concluir minha fala, fazendo algumas considerações: O cristianismo é um modo de vida; a salvação que oferecia era salvação do pecado, e a salvação do pecado não aparece somente numa esperança futura, mas também uma mudança moral imediata. No entanto, como essa vida era produzida? Era produzida por uma narração de um evento, isto é, a morte do Senhor e respectiva ressurreição, que era insensatez para muitos naquele período, e ainda o é para muitos modernos liberais. Isso é altamente doutrinário. A vida das pessoas eram transformadas por um notícia: Ele ressuscitou!

 

Moderador: Queria agredecer ao Dr. Machen e aos doutores da ala liberal por esse respeitoso debate. Espero encontrá-los novamente em outros debates.

 

John Grechan Machen foi um dos teólogos mais conservadores que combateu o liberalismo teológico do século XX. Foi professor de Novo Testamento no Westminster Theological Seminary, Filadélfia, Pensilvânia. Machen levou um pequeno grupo de conservadores para fora da igreja para formar a Igreja Presbiteriana Ortodoxa. Quando a igreja Presbiteriana do Norte (PCUSA) rejeitou seus argumentos durante os meados de 1920 e decidiu reorganizar Princeton Seminário para criar uma escola liberal, Machen assumiu a liderança na fundação de Westminster Seminary, na Filadélfia (1929), onde ele ensinou Novo Testamento até sua morte. Sua oposição continuou durante os anos 1930 ao liberalismo em agências de missões estrangeiras de sua denominação levou à criação de uma nova organização, o Conselho Independente de Missões Exteriores Presbiteriana (1933). O julgamento, condenação e suspensão do ministério de conselheiros independentes, incluindo Machen, em 1935 e 1936 desde que a razão para a formação em 1936 do OPC.

Michel Augusto é pastor, teólogo e jurista. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia. É professor de Teologia Pastoral na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF. Áreas de pesquisa: Teologia Pastoral (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

Notas Bibliográficas

MACHEN, John Grecham. Cristianismo e liberalismo. São Paulo: Shedd Publicações, 2012.

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