Michel Augusto

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Semelhanças sutis e diferenças fundamentais entre o cristianismo e marxismo

Uma entrevista fictícia com David F. Wells[1]

Adaptado por Michel Augusto[2]

M: Bom dia Dr. David! É um prazer enorme entrevistar o senhor, partindo de um tema tão relevante para o momento atual e a crise evangelical que enfrentamos, especificamente no Brasil.

David Wells: Bom dia! Fico feliz em poder contribuir para o contexto atual no Brasil.

M: Bom, para início de conversa, quem são os marxistas?

David Wells: Os marxistas partem do materialismo, uma visão segundo a qual nada existe além da matéria, isto é, não há dimensão espiritual, mundo moral, sobrenatural, e não há Deus. Se opõem aos idealistas.

M: Os materialistas se dividem em quantos grupos?

David Wells: Em dois. Alguns, como os marxistas, são filósofos, porém ateus teóricos e os ocidentais, que são ateus práticos.

M: Qual é o fundamento do materialismo?

David Wells: Sem dúvidas que, o secularismo conduz ao materialismo. O secularismo parte do pressuposto que os processos da vida são separados de qualquer ordem divina ou moral subjacente. Deus pode até existir, mas sua existência não é significativa para qualquer área da vida. O certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o importante e o trivial são derivados da nossa experiência.

M: Poderíamos dizer que a consequência do secularismo e materialismo gerou o pluralismo?

David Wells: Sem dúvidas. O pluralismo tornou-se parte inevitável da realidade moderna. Se a experiência é o critério, então o que parece adequado para cada indivíduo deve ser aceito, pelo menos momentaneamente.

 M: Qual é o resultado prático disso?

David Wells: Como resultado, a cultura ocidental aceita que somente no “eu” – suas necessidades, sentimentos e desejos – existe acesso aos significados. Esse pluralismo e seu parente, o secularismo, hoje são amparados no Ocidente por forças sociais poderosas que na prática demandam esses hábitos mentais. Não é difícil perceber como a secularização (a forma da sociedade moderna moldada, principalmente, pela industrialização e urbanização) se aglutina com o secularismo (valores que resultam da desconexão da vida da ordem divina global). O reflexo disso nas cidades é a dicotomia entre a vida pública e privada. A reputação pessoal não é mais válida, pois a responsabilidade econômica desvinculou-se da responsabilidade moral.

M: Como o ensinamento cristão pode ser apresentado às pessoas que se encontram nessa categoria?

David Wells: O ocidente tornou-se tão alienado dos valores cristãos que os cristãos devem se engajar na comunicação intercultural. A evangelização no ocidente admite a simples apresentação da mensagem do Evangelho – quanto mais simples melhor – para produzir o obstáculo mínimo à aceitação da fé cristã. Essa abordagem é perigosa, pois declarar simples verdades do Evangelho para as massas não é o mesmo que “alcançá-las”. Não se pode declarar que a fé cristã foi comunicada até que ela tenha sido entendida, e a maioria da população secular não está em condições de compreender a verdade cristã caso apenas ouça a versão mínima do Evangelho e lhes peça assentimento imediato.

M: Por que temos que tratar do conceito de conversão de forma mais contundente?

David Wells: É adequado investigar o conceito cristão de conversão à luz do marxismo, pois da mesma forma que o cristianismo, o marxismo ensina que as pessoas precisam passar por uma mudança radical. O marxismo trabalha com a “solidariedade na prática” e na construção da sociedade socialista, onde a tarefa básica é ajudar pessoas a se tornarem cidadãos socialistas bem-educados e autodisciplinados com elevados ideais e integridade moral, e elevar os padrões ideológicos e éticos de toda a nação.

M: O conceito originário de Marx, ainda presente, sustenta a necessidade da mudança moral nos seres humanos. As pessoas devem sair do egoísmo para a solidariedade. O que o Evangelho apresenta?

David Wells: A esperança no Deus vivo, o salvador (1 Tm 4.10) é descartada na perspectiva marxista, pois qualquer que seja a motivação, devem ser provenientes de agentes terrenos.

M: Qual seria a resposta bíblica ao marxismo?

David Wells: O marxismo tem a forma da fé, mas o conteúdo do humanismo ateu. O marxismo tem fortes semelhanças com a fé cristã e divergências importantes. A teologia cristã concorda com a análise inicial de Marx, mas Jesus, depois de alimentar as multidões, não permitiu que o considerassem apenas um fornecedor estimado de provisões materiais (Jo 6.15). O cristianismo, também, se importa que todos tenham as necessidade da vida providas. Mas também sustenta que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus – Mt 4.4)  – versículo citado pelos marxistas, mas somente na primeira parte. Do ponto de vista cristão, viver consiste em realizar a vontade divina, não buscar o próprio bem-estar. O materialismo inato aplica um truque sujo no marxismo nesse ponto, por meio de uma meia-verdade que muitas vezes se apresenta como a plenitude do Evangelho. Na verdade, precisamos do pão, mas não podemos nos contentar quando o temos. Meios materiais não resolvem problemas morais, certamente não quando os problemas são vistos sob o domínio do ego.

M: Quais pontos seriam distintivos entre o cristianismo e o marxismo?

David Wells: O cristianismo é completamente cético em relação a esquemas globais de salvação social. A teologia cristã apoia o conceito da conversão concreta. No entanto, a fé bíblica também chama à conversão completa no sentido de a pessoa se voltar não apenas para o próximo, mas também, e principalmente, para Deus. Quando Deus é ignorado, e as mudanças se baseiam apenas na autoridade humana, o relativismo moral é inevitável. O compromisso do cristianismo com a justiça logicamente exige padrões morais absolutos, e eles são impensáveis sem a autoridade de Deus. A teologia cristã duvida da capacidade da educação, ou da mera apresentação de ideias, para produzir a mudança moral. O marxismo tem esse discurso idealista. O nacionalismo sem dúvida não cria o “homem novo” da “irmandade humana”, mas pode facilmente se tornar uma das mais potentes e desagradáveis encarnações do “velho homem”. Educação e acompanhamento são medidas externas que não penetram no coração.

M: Por fim, o que é conversão?

David Wells: Não ocorrerá a conversão do próximo sem conversão a Deus. A redescoberta do próximo sem a conversão a Deus é vã; o ateísmo marxista causa estragos com suas próprias metas elevadas. Por isso o jovem Marx, depois de ter esboçado o problema do homem como o único ser na criação que não cumpre seu objetivo, continuou a afirmar que o cristianismo é necessário para o desenvolvimento completo. Onde há um encontro com Jesus, a mudança moral (como na história de Zaqueu, o cobrador de impostos), não surgiu como consequência de uma ordem, mas apareceu de modo espontâneo, a evolução de uma necessidade, não de coerção. Também por isso Agostinho, Bernardo e Calvino se referem ao “testemunho interno” do Espírito Santo, que autoriza a mensagem objetiva anunciada e se torna a propriedade mais íntima da pessoa. Isso efetua a mudança no “coração”, centro de motivação, e ultrapassa a mudança moral como postulado. Fala do amor como dom divino, derramado em nosso coração (Rm 5.5). Sem ele, procuraremos em vão pela mudança moral que combine autocrítica e a dedicação inabalável aos padrões absolutos do que é certo.

David Wells (PhD pela University of Manchester na Inglaterra), é pastor Congregacional é professor de Teologia histórica e Sistemática no Gordon Conwell Theological Seminary. Ele é autor de vários livros, incluindo No Place for Truth a ser publicado por Shedd Publicações.

Michel Augusto é pastor e teólogo. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia.

É professor de Teologia Prática na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF.

Áreas de pesquisa: Teologia Prática (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

Notas bibliográficas

WELLS, David F. Volte-se para Deus. A conversão cristã como única, necessária e sobrenatural. São Paulo: Shedd Publicações, 2016

[1] WELLS, David F. Volte-se para Deus. A conversão cristã como única, necessária e sobrenatural. São Paulo: Shedd Publicações, 2016, p. 159-187

[2] A adaptação aconteceu apenas no formato e não no conteúdo. O texto é literal, extraído do capítulo sete: Materialista de fora.

 

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