Michel Augusto

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Qual resposta daremos? Uma reflexão sobre a ordenação de homossexuais ao cargo pastoral

Breve Reflexão Teológica

Por Michel Augusto

Estamos vivendo uma degradação cotidiana da sociedade, cultura e comunidades. A graça comum do Senhor não permitiu uma destruição total daquilo que nos cerca, mas os efeitos do pecado original se alastram com uma velocidade impressionante. Nesse contexto, há uma imposição para que venhamos adotar a cultura de gêneros. Pretendo refletir acerca da questão da ordenação de homossexuais ao ministério pastoral no contexto de igrejas históricas e os respectivos efeitos internos e externos. Ao me deparar com um pastor e escritor protestante que ovacionou a atitude de uma igreja histórica norueguesa e outras da Alemanha e Estados Unidos que aprovaram a ordenação gay, me senti desolado e ao mesmo tempo, com uma vontade enorme de lutar a favor do conservadorismo bíblico e histórico. A linguagem liberal do “amor” tem assolado o significado da proclamação do Evangelho. É uma abordagem perigosa desempenhada nos Estados Unidos por Rob Bell e seus seguidores universalistas. Abraham Kuyper diz que “o contraste fundamental sempre foi, ainda é, e será até o fim: Cristianismo e paganismo, os ídolos ou o Deus vivo[1]”. Assim sendo, que respostas daremos a:

  1. Quando falo de igreja, me refiro àquela que tem Cristo como Salvador e Senhor e considera a Bíblia como autoridade final em matéria de fé e prática. A sociedade naturalmente é moldada conforme o mundo decaído, e precisa das contraposições bíblicas que a igreja oferece através da pregação do Evangelho para que suas estruturas não se dissolvam completamente. Não se trata de uma visão transformacionista total, como lembra Timotty Keller na obra “igreja centrada[2]”, mas de uma ação que visa implementar uma cultura cristã em cada espaço onde existam pessoas habitando. A graça comum está em plena ação, mas não pode gerar um senso de irresponsabilidade da Igreja comprometida com o Reino de Deus. Caso a sociedade não veja posições firmes, conservadoras e uma postura bíblica internamente, qual será a influência externa que teremos? Se a igreja aceita a discussão de gêneros a ponto de ordenar “ministros” homossexuais ao pastorado, qual será a resposta que ela dará ao mundo perdido?
  2. Geração presente e futura. Quando digo futura, me refiro aos próximos dias, pois a frouxidão doutrinária tem acelerado a adesão de formatos jamais aceitos em época bíblica e no decorrer da história da igreja. Nos últimos dez anos temos acompanhado uma evolução numa curva decrescente moralmente falando. Ultimamente vimos uma Igreja Batista da CBB incluindo um casal homossexual através da ordenança batismal. Um grupo de jovens de formação wesleyana tem manifestado apoio à ordenação pastoral. Igrejas luteranas na Alemanha, Noruega e Estados Unidos e um grupo presbiteriano Americano já aderiram às questões de gênero no tocante ao ofício de pastor e mestre. Imagine a qualidade bíblica dessa pastoral! Que ensinamentos esses “mestres” passarão à igreja de Cristo?
  3. Uma espiritualidade cultural. “O secularismo e o marxismo são pragas infiltradas nas comunidades, mas David Wells analisa que existe outra praga fruto da “pós” modernidade: “a espiritualidade cultural. Representa uma ameaça ainda maior para a fé bíblica que o secularismo e o marxismo[3]“. Por que? A modernidade foi caracterizada pelo cientificismo, já a “pós”-modernidade pode ser definida como uma “era espiritualizada”. Nesse contexto, os propositores dos debates de gênero não se satisfazem em defender sua posição, mas querem atuar como “pastores”, porque não se sentem confrontados pelas Escrituras Sagradas. A espiritualidade atual não é bíblica e a consequência é uma adesão espiritual descomprometida com os preceitos divinos. Como fruto do liberalismo moderno, as inúmeras espiritualidades atuais “perdeu de vista as duas pressuposições da mensagem cristã – o Deus vivo e a realidade do pecado. A doutrina liberal de Deus e do homem estão, ambas, opostas à fé cristã[4]”.
  4. Feminismo e discussões de gênero. A ordenação pastoral de homossexuais nada mais é do que a consequência do abandono da Bíblia como autoridade final. O feminismo evangélico foi o primeiro passo. O segundo, conforme nos lembra Wayne Gruden, “é a ordenação de homossexuais e a promoção deles, colocando-os nas altas posições de liderança da igreja[5]”. Tudo começa com os ataques liberais usados no método da alta crítica bíblica de desconstrução doutrinária no contexto das novas perspectivas dos estudos paulinos. O texto de Romanos 1.24 destaca:   “Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si. Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bandito enternamente[6]”. “A rebelião contra a revelação de Deus na natureza não aconteceu somente uma vez, mas continua de geração em geração[7]”. O que outrora se perfazia numa rebelião externa no tocante das nações gentílicas, agora é vista internamente, dia após dia, no contexto da igreja atual. Não bastasse o enfrentamento desmoralizante de questões de gênero, igrejas históricas resolvem usar o método da inclusão através do batismo e ordenação oficial ministerial. Onde vamos parar?

Qual é o futuro das igrejas históricas no Brasil e no mundo? Como será a pregação, o aconselhamento e catequese do povo de Deus no contexto do abandono das Escrituras Sagradas? Qual é a resposta e a catequese que os defensores do casamento e ordenação pastoral homossexual darão à igreja que estão inseridos e à sociedade e cultura corrompida pela pecado? O que ensinarão quando lhes perguntarem se a Bíblia permite isso ou aquilo? Como transmitirão a doutrina do pecado e salvação? Baxter nos lembra que “enorme importância tem a educação sábia e santa das crianças para a salvação de suas almas, para o consolo de seus pais, para o bem da igreja e da sociedade e para a felicidade do mundo! É tão grande, inconcebível mesmo, a calamidade na qual o mundo caiu por negligência desse dever[8]”. Kuyper acrescenta: “Deus soberanamente pode modificar o conceito dos homens. O avivamento da vida não vem de homens. No mundo moral também temos um tempo de primavera, quando tudo brota e explode em vida, e novamente o frio do inverno, quando todos os rios vitais congelam e toda energia religiosa fica petrificada[9]”.

Notas bibliográficas

GRUDEN, Wayne. Confrontando o feminismo evangélico. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.

GENEBRA, Bíblia de Estudo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2 ed., 2014.

MACHEN, John Gresham. Cristianismo e liberalismo. São Paulo: Editora Shedd, 2012, p. 63.

BAXTER, Richard. Conselho para os pais pastorear seus filhos. São Paulo: Editora Shedd, 2011.

WELLS, David F. Volte-se para Deus. São Paulo: Editora Shedd, 2016.

Sobre o autor

Michel Augusto é pastor e teólogo. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia.

É professor de Teologia Prática na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF.

Áreas de pesquisa: Teologia Prática (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

[1] KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2 ed., 2014, p. 207

[2] KELLER, Timoty. Igreja Centrada. São Paulo: Editora Vida Nova, 2015.

[3] WELLS, David F. Volte-se para Deus. São Paulo: Editora Shedd, 2016, p. 19

[4] MACHEN, John Gresham. Cristianismo e liberalismo. São Paulo: Editora Shedd, 2012, p. 63.

[5] GRUDEN, Wayne. Confrontando o feminismo evangélico. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009, p. 221.

[6] GENEBRA, Bíblia de Estudo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009, p. 1474.

[7] GENEBRA, 2009, p. 1475

[8] BAXTER, Richard. Conselho para os pais pastorear seus filhos. São Paulo: Editora Shedd, 2011, p. 6

[9] Kuyper, 2014, p. 208.

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