Michel Augusto

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Por que o Feminismo Evangélico está ligado ao Liberalismo Teológico?

Reflexões Teológicas

Por Michel Augusto

A igreja evangélica brasileira em alguns seguimentos está caminhando rapidamente para o liberalismo teológico. Isso tem acontecido de forma direta, através da inserção da alta crítica no processo de interpretação bíblica nos seminários ou de forma indireta, através de denominações que não possuem um contato direto com a teologia, mas adotam em suas estruturas a prática liberal, sem ao menos perceberem do que se trata.

Quando falamos de feminismo evangélico, nos reportamos a algo que abrange não somente a oficialização pastoral feminina, mas aos vários aspectos do contexto familiar, igreja e sociedade. A ordenação feminina no âmbito evangelical pós-moderno seria o prêmio dessa luta da mulher oprimida, funcionando como uma dignidade oriunda pelas conquistas da mulher na vida profissional, política e social.

Assim sendo, temos como proposta avaliar a ligação do feminismo evangélico com o liberalismo teológico. Não macularemos a importância da mulher na história da igreja, mas partiremos do pressuposto que o feminismo é fruto do pensamento liberal e se não tratarmos disso com seriedade, seremos obrigados a enfrentar o oficialato pastoral em outras dimensões, como tem acontecido nos EUA e Alemanha, berço do liberalismo. Destaca-se nessa reflexão teológica alguns pontos do itinerário feminista-liberal no contexto atual.

  1. Dignidade feminina. A importância da mulher é imensurável, mas essa valoração tem sido acentuada com titulações pastorais em virtude da capacidade desempenhada num dado trabalho na igreja e da evolução histórica do desempenho da mulher na sociedade. A questão gira em torno do seguinte tópico: Se mulher tem ocupado cargos outrora inimagináveis, porque não desempenhar a função pastoral? Há uma distorção acerca do tipo de dignidade que precisa ser restaurada na história feminina. A honra preterida tem sido restaurada pelas vias erradas e a qualquer custo;
  2. O feminismo e as questões sociais e antropológicas. O feminismo evangélico tem se respaldado na teologia da libertação e outras teologias sociais com pouco ou nenhum significado bíblico-histórico-redentivo, a fim de fundamentar a igualdade de papéis no contexto do ofício pastoral. O pressuposto liberal auxilia e fortalece o pensamento feminista na medida em que as Escrituras deixam de ser vistas como Sagradas e não funcionam como autoridade final da igreja. Schaeffer fala que “os cristãos deixam de crer na Bíblia quando começam a ensinar o que é sociologicamente cômodo como se fosse um absoluto de Deus[1]”;
  3. Idealismo secular. Aqueles que pretendem defender a Bíblia como Palavra de Deus, como inspirada, infalível e autoridade final em matéria de fé e prática, serão acusados de fundamentalistas. Niebuhr, citado por Schaeffer diz que esses “fundamentalistas procurarão excluir as mulheres pela citação de determinados trechos bíblicos e que a igreja deveria deixar de usar argumentos cristãos e se render ao idealismo secular, pois o mesmo pode expressar a Palavra de Deus melhor que a Bíblia[2]“. O idealismo secular se infiltrou no contexto evangelical, quebrando a necessidade de um olhar bíblico para o contexto atual;
  4. Uma queda paulatina no liberalismo. Por que algumas denominações, mesmo não declaradamente liberais, estão caminhando para essa vertente? 1) porque as exceções se tornam regras no tocante à participação eventual feminina seja no Antigo como no Novo Testamento; 2) porque estão desconstruindo a relação que há entre a liderança na família e a igreja, conforme a Epístola de Paulo a Tito; 3) porque partem do pressuposto da experiência e capacidade; 4) porque estão acrescentando um processo que não tem fundamento no Novo Testamento, nos pais da igreja e nem na história do cristianismo. É certo que a Bíblia está acima da tradição, mas a tradição não foi anulada; 5), porque a quebra do princípio da autoridade masculina na estrutura oficial da igreja traz como consequência uma ruptura da estrutura familiar na concepção bíblica;
  5. Exegese liberal feminista. Afirmamos que o feminismo tem bases liberais a partir dos pressupostos que os seus defensores defendem. O que está em jogo é questão da autoridade bíblica em todas as matérias da vida cristã. “A acadêmica feminista Elisabeth Schssler Fiorenza confessa que vasculha a Bíblia procurando um “cânone dentro do cânone” que sustente o cerne do feminismo espiritual, “a busca pelo poder da mulher. Para ela, uma hermenêutica crítica feminista não busca na Bíblia a fonte primária, mas tem início nas experiências e visão de libertação da mulher. Quando, porém, ela diz: A Bíblia não funciona mais como fonte de autoridade, mas como recurso para a luta da mulher em prol da libertação, nós perguntamos: “Se a Bíblia não tem autoridade, por que suor para fazer exegese? Por que não meditar na experiência e escolher algumas ideias bíblicas para apoiar o resultado[3]?”;
  6. Ordenação feminina e ordenação de homossexuais. Por que a ordenação feminina pode desaguar na oficialização do pastorado homossexual? A raíz se encontra no liberalismo. Se o texto bíblico deixa de ser autoridade final para a igreja através do uso da alta crítica, a consequência natural é o enfrentamento do pastorado Shaeffer diz que “se aceitarmos o conceito de igualdade sem distinção, também devemos aceitar, logicamente, os conceitos de aborto e homossexualismo.[4]” Doriane complementa afirmando que “os conceitos ocidentais de liberdade e auto-expressão fazem com que até os conservadores perguntem se o homossexualismo não seria mais que um estilo alternativo. Pastores culturalmente isolados não enxergam a extensão em que crentes tem adotado pontos de vista do mundo[5];
  7. Igualdade sem distinção. Se abandonarmos o princípio da complementariedade e adotarmos o igualitário sem distinção, cairemos no liberalismo. Daniel Doriane destaca que os “americanos em geral concordam com ideias feministas de senso comum quanto à igualdade de homens e mulheres ao que diz respeito a dons e energia. As palavras de Paulo sobre homens como mestres e as mulheres submissas parecem retrógrado e ofensivas para muitos secularistas e até para alguns cristãos[6]”. Schaeffer contribui novamente dizendo que “a chave para entender o feminismo extremo gira em torno da ideia de igualdade sem distinção. A Bíblia não ensina desigualdade entre homens e mulheres. Cada um tem uma posição diante de Deus como pessoa criada à imagem e como pecador que carece de salvação. Essa igualdade, porém, não é de uniformidade monolítica ou de similaridade entre homens e mulheres. É uma igualdade que preserva as diferenças fundamentais entre os sexos e permite a efetivação e o desenvolvimento pleno dessas diferenças. Assim, ambos possuem uma igualdade comum, com implicações críticas em todos os aspectos da vida; uma vez que homens e mulheres são criados com distinções, como expressões complementares da imagem de Deus, com implicações. O mundo atual trabalha a liberdade autônoma quebrando os limites definidos pelas Escrituras[7]”;
  8. A alegação de que não se trata de uma tema fundamental da fé. O liberalismo é focado em desconstruir não somente as doutrinas fundamentais da fé, mas a Bíblia, como Palavra de Deus. Assim, surge a pergunta: a ordenação feminina não afeta os fundamentos da fé, então porque lutar contra esse progresso e vitória na história feminina? Bom, é verdade que a ordenação feminina não afronta diretamente os fundamentos da fé, mas, indiretamente, dada sua origem em pressupostos liberais, acaba afetando a estrutura de autoridade final das Escrituras, dada a dicotomia que os liberais fazem entre Jesus e Paulo.
  9. Papéis distintos. O cristianismo oprime a mulher, por destacar papéis distintos no reino de Deus? Funções diferentes diminui a sua importância? O ponto mais nevráugico gravita em torno da capacidade para o ofício ministerial pastoral. Quando nos retratamos à Carta aos Efésios, Paulo “não está falando das mulheres em seu dever de instruir sua família; está apenas excluindo-as do ofício do sacro magistério, o qual Deus confiou exclusivamente aos homens, tema introduzido na primeira carta aos Coríntios. Se for citado o caso de Débora (Jz 4.4) e outras mulheres que Deus designou, em determinado tempo, para a função de governo, segue uma regra: Os atos extraordinários de Deus não anulam as regras ordinárias, às quais ele quer que nos sujeitemos[8]”;

Assim sendo, queremos destacar o valor da mulher nos diversos papéis na família, sociedade, cultura e no reino de Deus. No entanto, enfatizamos que a segmentação de papéis, biblicamente falando, não diminui e nem ultraja o valor do universo feminino[9]. A igualdade sem distinção é fruto do pensamento liberal que tem como consequência a ordenação oficial pastoral do universo homossexual em seguimentos igrejeiros históricos.

Sobre o autor

Michel Augusto é um cristão reformado calvinista. Pastor, Teólogo e Jurista. Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST – bolsista pela Capes. Mestre em Teologia (Novo Testamento) pela Faculdade Teológica Cristã do Brasil. Bacharel em Direito e Teologia.

É professor de Teologia Prática na FTRB – Faculdade Teológica Reformada de Brasília. Pastor da Igreja Batista Deus é Luz. Membro da Ordem de Ministros Batistas Nacionais/DF e OAB/DF.

Áreas de pesquisa: Teologia Prática (homilética – sermão expositivo), Teologia da Musicalidade, Mídia e Religião e Teologia do Novo Testamento.

Notas Bibliográficas

CALVINO. João. Pastorais. São Paulo, Editora Fiel, 2009.

DORIANE, Daniel M. A verdade na prática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2007, p. 47-48.

GRENZ, Stanley. Mulheres na igreja. Teologia bíblica para mulheres no ministério. São Paulo, Candeia, 1998.

GRUDEN, Waine. O feminismo Evangélico. Um novo caminho para o liberalismo. São Paulo, Cultura Cristã, 2009.

SCHAEFFER, Francis. Igreja do século XXI. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010 p. 110.

REIMER, Ivoni Richter. Maria, Jesus e Paulo com as mulheres. Textos, Interpretações e História. Paulus. São Paulo: 2013.

[1] SCHAEFFER, Francis. Igreja do século XXI. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010 p. 67.

[2] SCHAEFFER, 2010, p. 110.

[3] DORIANE, Daniel M. A verdade na prática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2007, p. 47-48.

[4] SCHAEFFER, p. 340.

[5] DORIANE, p. 48.

[6] DORIANE, p. 48.

[7] SHAEFFER, p. 339.

[8] CALVINO. João. Pastorais. São Paulo, Editora Fiel, 2009.

[9] Debate sobre Ordenação Feminina. Link: https://youtu.be/0fk1yJOyjwA

One comment on “Por que o Feminismo Evangélico está ligado ao Liberalismo Teológico?

  1. João Batista

    Quase vomitei, mas consegui ler até o final, aliás, pra criticar tem que conhecer primeiro. Que ideias abusivas e estupidas. Usando o machismo pra justificar o ódio em ver uma mulher se sustentando ou se dedicando (isso pq elas ainda são 10% ou no máximo 20%) responsáveis pelas grandes fortunas. Paulo é aquele que mandou a mulher calar a boca na igreja? Cuidado para não se assemelharem com os islâmicos extremistas. E Viva o Ocidente, exemplo pro resto do mundo.

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