Michel Augusto

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Igreja e cultura. Um diálogo entre John Frame e Timotty Keller

Reflexão Teológica

Por Michel Augusto

Introdução

 Não sabemos como conviver com as questões culturais que cercam a igreja. Temos modelos de enfrentamento cultural a adotar e vez ou outra somos surpreendidos com a inabilidade de compreensão entre a terra e o céu, o sagrado e o profano, o mundo e a igreja.

Neste ensaio, trataremos do conceito de igreja e cultura e faremos uma correlação ao modelo que seguimos e os seus riscos. Quanto à igreja, no “século dezesseis foi apresentado um novo conceito de igreja – comunhão dos santos – a assembleia de pessoas regeneradas por Cristo, que se apresenta de forma visível e invisível. É o povo de Deus, quem tem como fundamento Cristo, o Senhor, o qual acrescenta à igreja aqueles que estão sendo salvos (At 2.47)”.[1]

Em relação à cultura, John Frame ressalta que “Deus nos criou e tudo o que o homem criado faz é cultura. Só que o propósito da criação é que essa cultura fosse para a glória de Deus (1 Co 10.31, Rm 14.23, Cl 3.17). A cultura é o que a sociedade fez com a criação de Deus. Citando Henry Van Til, diz que cultura é o serviço a Deus na nossa vida. Se uma sociedade adora ídolos, deuses falsos, então essa adoração irá governar a cultura dessa sociedade. Se uma sociedade adora a Deus, essa adoração influenciará sua cultura ( aquilo que ela faz). Existem culturas que negam ao Senhor. As culturas revelam a queda inicial. O propósito original de Deus é encher o mundo com uma cultura humana que o glorifique. Ser eticamente bom não significa que a cultura é boa. Porque cultura cristã são ações que glorificam a Deus. O Evangelho é uma mensagem que avisa da ira vindoura (futuro) e também um reino presente (o que você faz na sociedade, profissão, escolar, vida). A cultura é uma ambiguidade, uma mistura de pecado e retidão, de bem e mal, de amor a Cristo e ódio. Nossa cultura expressa culto a Deus ou a um ídolo.[2]

Modelos culturais, evangelho e igreja

 Os modelos culturais apresentam pontos que precisam ser discutidos. Tim Keller[3], citando Niebuhr nomenclatura o modelo Cristo contra a cultura de “modelo de afastamento”. Frame(2) destaca que no modelo Cristo contra a cultura, “precisamos considerar o fator da graça comum. Deus não destruiu a humanidade e age fora do ambiente da graça salvífica. “Toda cultura é ruim? Não. Deus refreia o pecado com a graça comum. Mas não justifica, pois precisamos da graça salvífica. Cultura é uma mistura do bem e do mal. Assim, nem tudo que tá na cultura é mundano. Paulo usou uma linguagem grega. Cristo contra o mundo sim, mas contra a cultura, nem sempre, por causa da graça comum”.[4]

 Frame(2) continua dizendo que “os pais da igreja tendiam a ver Cristo e a cultura em conflito; essa posição destaca que há algo de bom na cultura”. Tim Keller(3) citando Niebuhr, diz que se “trata de um modelo de acomodação que reconhece Deus trabalhando na cultura”. Frame(2) ressalta que a “posição liberal Cristo da cultura tende a negligenciar a doutrina bíblica do pecado”.

Ainda conforme Frame(2) “Deus deseja que vivamos a vida natural para a sua glória. Não podemos separar o natural do superior. Schaeffer formula a questão: “como podemos estabelecer um relacionamento do cristianismo do superior e inferior da vida cotidiana ? Deus revelou algo para ao mundo inferior (sistema legal da reforma). Damos uma resposta ao problema do mal – queda. Precisamos evangelizar o homem do século XXI”.[5] Tim Keller (3), citando Niebuhr, diz: “é um modelo sintético que defende, por meio de Cristo, a complementação do que há de bom na cultura e uma construção em cima desses aspectos positivos da cultura.” Frame (2) resume o significado do modelo dizendo que “Cristo é o superior que se relaciona com as coisas inferiores”.

Ao destacar o modelo transformacionista, Frame (2) afirma que “a nossa percepção regenerada influencia a cultura. O cristão deve buscar implantar os padrões bíblicos em todas as áreas da sociedade e cultura. O que não pode acontecer é o cristão levar os padrões seculares para a igreja”. Tim Keller(3), citando Niebuhr diz que trata-se de “modelo dualista que vê os cristãos como cidadãos de dois reinos diferentes, um sagrado e o outro secular”. Frame conclui: “Assim, vivemos em todas as esferas sob a soberania divina. Cristo e a cultura em paradoxo”.

Em qualquer ambiente pode haver uma influência cristã. John Frame(2) defende o modelo Cristo, transformador da cultura, de acordo com o padrão da Palavra de Deus. Não é transformar a terra em céu ou o mundo em igreja. Conforme Kennedy e Newcombe: Não é tentar salvar o mundo à parte da graça de Deus. Mas obedecer a Deus. Aplicar padrões cristãos. Muitos aplicam uma ética crista”. Tim Keller(3), se reportando a Niebuhr diz: “modelo conversionista que busca transformar cada parte da cultura por meio de Cristo”. Frame reafirma: “O cristão vive na cultura para a glória de Deus”. É o modelo Cristo transformando a cultura. No entanto, Tim Keller(3) destaca que o modelo transformacionista tem alguns riscos: “1. depreciar o valor da igreja. A verdadeira ação é a externa; 2. triunfalismo. Acesso ao poder e vou mudar tudo; 3. Justiça própria; 4. Não teremos uma cultura cristã por inteiro; 5. Valor excessivo à política como meio de mudar a cultura; 6. Reconhecer os perigos do poder”.

Por fim, o modelo “Cristo transformando a cultura” adotado por John Frame se torna relevante à medida que consideramos os perigos acima destacados por Tim Keller. Conforme o referido autor(3), cada modelo tem uma verdade essencial sobre o relacionamento do evangelho com a cultura. Mas nenhum deles, sozinho, revela o cenário todo. Recursos da teologia bíblica são necessários para resolver as questões da: 1. criação. O mundo físico é importante. b) a ordem Gn 1.26-28; b) todo trabalho humano e toda atividade cultural 2. queda. A morte e o pecado limitam o potencial da cultura, pois distorcem os desejos em virtude do certo e errado. 3. Redenção. Cristo”. Francis Schaeffer(4) contribui dizendo que o “pecado arruinou e desfigurou cada aspecto da vida. A distância espiritual é resolvida com a justificação. A bíblia é o horizonte que controla tudo”.

Notas Bibliografia

(1) BAVINCK, Herman. Dogmática reformada. Espírito Santo, igreja e nova criação. Vol 4. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012, p. 291.

(2) FRAME, John M. A doutrina da vida cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

(3) KELLER, Timothy. Igreja centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014.

(4) SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. A desintegração da vida e da cultura moderna. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p.91

 

 Bibliografia complementar para aprofundamento do tema

DEVER, Mark; ALEXANDER, Paul. Deliberadamente igreja. São José dos Campos: Editora Fiel, 2008.

___________. Nove marcas de uma igreja saudável. São José dos Campos: Editora Fiel, 2007.

KELLER, Timothy. Igreja centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014.

LEEMAN, Jonathan. A igreja e a surpreendente ofensa do amor de Deus. Reintroduzindo as doutrinas sobre membresia e a disciplina da igreja. São José dos Campos: Editora Fiel, 2013.

PETERSON, Eugene. A maldição do Cristo genérico. A banalização de Jesus na espiritualidade atual. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2007.

___________________O caminho de Jesus e os atalhos da igreja. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2009, p. 25.

BOICE, James Montgomery. O discipulado Segundo Jesus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.

MARSHALL, Collin; PAYNE, Tony. A treliça e a videira. A mentalidade de discipulado que muda tudo. São José dos Campos: Editora Fiel, 2015.

NICODEMUS, Augustus. Polêmicas na igreja. Doutrinas, práticas e movimentos que enfraquecem o cristianismo. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2015.

CLOUSE, Robert; PIERARD, Richard V.; YAMAUCHI, Edwin. Dois reinos. A igreja e a cultura interagindo ao longo dos séculos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003.

KOSTENBERGER, Andreas J. A heresia da ortodoxia. Editora Vida Nova, 2014.

STOTT, John. Os cristãos e os desafios contemporâneos. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2014.

COSTA, Herminster Mais Pereira. Raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.

GREEN, Michael; MCGRATH, Alister. Manual do Semeador. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

CARSON, D.A. A intolerância da tolerância. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

BENTON, John. Cristãos em sociedade de consumo. Para não cultuarmos o Deus “escolha” da nossa época. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.

TIL, Henry R. Van. O conceito calvinista de cultura. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

GONZÁLEZ, Justo L. Cultura e Evagelho. O lugar da cultura no plano de Deus. São Paulo: Editora Hagnos, 2011.

NICHOLLS, Bruce J. Contextualização. Uma teologia do evangelho e cultura. São Paulo: Editora Vida Nova, 2013.

FRAME, John M. A doutrina da vida cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

KELLER, Timothy. Como integrar fé e trabalho. Nossa profissão a serviço do reino de Deus. São Paulo: Editora Vida Nova, 2014, p. 58.

PIPER, John. Pense. São José dos Campos: Editora Fiel, 2011.

A vida da mente e amor de Deus. P. 135

HORTON, Michael S. O cristão e a cultura. Orientação bíblica para o crente. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.

DOOYEWEERD, Herman. Raízes da cultura occidental. As opções pagã, secular e cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2015.

SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. A desintegração da vida e da cultura moderna. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p.91

BAVINCK, Herman. Dogmática reformada. Espírito Santo, igreja e nova criação. Vol 4. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012, p. 291.

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia. Vol 6. 12. Edição. São Paulo: editora Hagnos, 2014.

MOHLER, R. Albert Jr. Deus não está em silêncio. Pregando um mundo pós-moderno. São José dos Campos: Editora Fiel, 2011, p. 125

TCHIVIDJIAN, Tullian. Fora de moda. Diferente para fazer diferença. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo liquid modern. São Paulo: Editora Zahar, 2013.

WRIGHT, N. T. Surpreendido pelas Escrituras. Questões atuais desafiadoras. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2015.

WRIGHT, N. T. Simplesmente Cristão. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2008.

GONZÁLEZ, Justo L. Ministério. Vocação ou profissão. O preparo ministerial ontém, hoje e amanhã. São Paulo: Editora Hagnos, 2012, p. 141-157.

MCGRATH, Alister. Paixão pela verdade. A coerência intellectual do evangelicalismo. São Paulo: Shedd publicações, 2007.

GETZ, Gene A. Igreja: Forma e Essência. São Paulo: Editora Vida Nova, 1995.

GONZÁLES, Justo. Desafios do século 21 para o pensamento cristão. São Paulo: Editora Hagnos, 2014.

CALVINO, João. Salmos. Volume 1. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2009.

SPURGEON, C. H. Esboços Bíblicos de Salmos. São Paulo: Editora Shedd, 2005.

Notas 

[1] BAVINCK, Herman. Dogmática reformada. Espírito Santo, igreja e nova criação. Vol 4. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012, p. 291.

[2] FRAME, John M. A doutrina da vida cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

[3] KELLER, Timothy. Igreja centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014.

[4] FRAME, John M. A doutrina da vida cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

[5] SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. A desintegração da vida e da cultura moderna. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p.91

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